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Design em tempos de Copa

Bem, aqui pelos nossos lados, o assunto da moda não poderia ser outro, que não a tão sonhada Copa do Mundo de Futebol, e com isso, muita gente me pediu que falasse um pouco sobre as minhas percepções em relação aos temas, marcas e elementos gráficos utilizados nas diversas edições do evento realizado desde 1930 no Uruguai.

Já tinha olhado para a Copa do Mundo de Futebol por este viés?

A Copa do Mundo ajuda a movimentar a economia do país. Esse é um dos momentos no qual mais tiramos fotos e não podemos esquecer de como fazer o celular descarregar devagar.

Criados para fins de identidade e divulgação, o embrião das marcas das Copas do Mundo foi o seu cartaz. Esta peça no início, sintetizava toda a essência do torneio, sempre mostrando-o de forma valorosa e agregadora, inclusive com a utilização de belas ilustrações, criadas por artistas renomados.

Se tentarmos tratar aqui apenas dos logotipos das Copas, provavelmente teremos problemas, pois os logotipos como elementos independentes, começaram a surgir apenas em 1954 na Copa da Suíça, e só depois foram ganhando força, até que em determinado momento, por volta de 1986 no México, começaram a ser mais importantes como imagem oficial do evento, do que o próprio cartaz ( peça que nos dias de hoje, passa quase que despercebida pelo público de um modo geral).

É visualmente perceptível a linha evolutiva e os estilos que pautaram a criação de cada identidade dos torneios, algumas mais conservadoras, outras mais ousadas, umas reverenciando o desporto através de interpretações de lances do próprio jogo, enquanto outras seguem a linha de valorizar a cultura local e suas peculiaridades.

O elemento comum em todas elas, é sempre a bola, ora óbvia, ora dissimulada, porém onipresente. Abaixo tratarei sobre cada uma das identidades, de forma leve e espontânea, tentando ser o mais claro e objetivo possível. Espero que curtam.

Todas as edições:

1930 – Uruguai

O cartaz, que até então, também servia como marca oficial do evento, foi desenhado pelo artista uruguaio Guillermo Laborde, no estilo Art Deco, e representa um lance comum do jogo, que é uma defesa de uma bola chutada ao gol. Percebam a sutileza da bola que entraria no canto superior direito da meta, não fosse defendida pelo arqueiro. Cores fortes e estilo tipográfico extremamente exótico, compuseram o restante do poster. Foi precursor, pioneiro, fez o que ninguém fez, e por isso merece muito respeito.

1934 – Itália

Aqui a representação fica a cargo de um jogador italiano que se prepara para um chute, um lance de ataque utilizado em contrapartida ao de defesa da edição anterior no Uruguai. Coincidência? Será? Ao fundo, uma fita de bandeiras dos países participantes completava a obra. Eu particularmente não gosto da cena, pois o jogador parece desequilibrado e tropeçando na bola, o que é antagônico ao próprio esporte, que prega o controle e o domínio. É o que penso.

1938 – França

Na iminência da Segunda Guerra Mundial o tema escolhido foi o sugestivo domínio do mundo pela bola de futebol. Percebam o tom de imponência ostentado pela ilustração, suas cores avermelhadas e tom sóbrio. Aqui nada é de graça ou está apenas para compor uma cena com fins estéticos. Tudo tem um objetivo e um porquê de existir. Pensem nisso.

1950 – Brasil

Depois da Guerra, o torneio de futebol vem para o Brasil, e o melhor, com mensagens subliminares de união e paz. As bandeiras unidas na meia do jogador visavam isso, mostrar um mundo unido em torno do futebol. O cenário carioca ao fundo completava a cena. É um estilo de ilustração que não me agrada muito, acho que está muito contido, certinho demais, algo muito colegial e sem personalidade. Mas enfim, vínhamos de uma guerra e era melhor não polemizar muito.

1954 – Suíça

O gol tomado e a rede estufada aparecem aqui como o tema central do cartaz. Numa ilustração com bastante estilo, o goleiro aparece olhando a bola, como que, se num lamento, pudesse ainda evitá-lo. Acho engraçado o fato dele aparecer com uma espécie de turbante na cabeça. Ao que me consta, os goleiros nunca usaram turbante, mas vai saber né? Gosto do conjunto, tende mais para o lado da arte, deixando a transmissão da mensagem em segundo plano, mas é uma bela peça. Esta Copa apresentou ao mundo uma curiosidade, o cartaz deixa de fazer o papel de logotipo, e o evento ganha um símbolo separado, que é um globo terrestre, com uma bola vermelha e o símbolo da Suíça à frente. Seria o fim de uma era em que os elementos gráficos se convergiam todos numa só peça, o cartaz?

1958 – Suécia

Provavelmente o mais feio de todos na minha opinião. Bola, bandeiras, jogador, enfim, o mesmo conjunto de elementos já utilizados antes, porém aqui estão dispostos de uma maneira bem simplória. Não gosto das cores, nem dos tipos e nem obviamente do conjunto final. Acho bem fraco, poderia ter usado um pouco mais.

1962 – Chile

Em tempos de corrida espacial, o cartaz faz menção ao tema. A bola é um satélite da terra, ou seria vice-versa? Enfim, o fato a ser destacado aqui, é novamente (a primeira foi na Copa de Suíça) a aparição desmembrada do logotipo de uma Copa. Mesmo não estando no cartaz, o logo oficial trazia uma imagem do Estádio Nacional do Chile com um globo e uma bola de futebol atrás. A bandeira do país-sede no centro do gramado completava o cenário. Uma marca repleta de elementos, com pouquíssimo ou nenhum poder de síntese. Digna de crítica, porém era um embrião e somente por isso, merece respeito.

1966 – Inglaterra

Bola dourada, provavelmente antevendo o resultado final daquela Copa, o leãozinho Willie como mascote e a taça Jules Rimet cuidadosamente colocada no centro da Union Jack. Eram todos os elementos necessários para motivar a nação bretã em busca do tão sonhado título mundial. Do ponto de vista do design, tem boa hierarquia de informação, diagramação, tipos claros e objetivos, enfim, cumpre perfeitamente o papel ao que se propõe. O logo desmembrado era composto pela bandeira da Grã-Bretanha, a Taça Jules Rimet e uma bola ao fundo. Soa familiar?

1970 – México

Objetivo, limpo, simétrico, equilibrado, enfim, lindo. Com o lançamento da bola Telstar, provavelmente a mais emblemática de todas as bolas de futebol criadas até hoje, tanto a marca do evento quanto o seu cartaz, ganharam uma boa base temática para suas confecções. Inovou, mexeu, chacoalhou, enfim, revolucionou a forma de se pensar tematizações futebolísticas naquela época. Além do mais, uniu de forma homogênea o logotipo e o cartaz numa só peça. Aplaudo de pé.

1974 – Alemanha* (Ocidental)

Na minha opinião, um retrocesso no quesito design, porém respeito a diversidade de estilos e pensamentos. Aqui há uma arte baseada em pinceladas fortes sobre um fundo preto. O cartaz é um tanto soturno e em nada lembra as linhas geométricas e limpas da marca. É a antítese da convergência da marca anterior no México. Esta eu passo.

1978 – Argentina

Eu não consigo olhar este cartaz e não ver o Rivelino e o Magnum comemorando um gol. Brincadeiras à parte, este cartaz é uma bela peça de design. Elogiado mundo afora, costuma agradar a gregos e troianos. Transmite emoção, mensagem e organização. Ponto para os Hermanos.

1982 – Espanha

Joan Miró dispensa maiores comentários. Sai do comum, oferece o novo, dita um rumo diferente do convencional. Isso por si só já me agrada. E o melhor, é muito bonito. As informações não estão óbvias, precisam ser garimpadas e isso pode incomodar um pouco. Eu gosto muito.

1986 – México

De novo apostou na Telstar e nos globos terrestres. Aqui ficou aquém. Se há 16 anos foi inventivo, agora se repetiu preguiçosamente. Trouxe cores óbvias (da bandeira mexicana), elemento óbvio (bola) e mais elemento óbvio (globo terrestre). Apesar de equilibrado, ao meu ver poderia ter ido além. Aqui foi pura perda de tempo. O cartaz desta edição, é totalmente distinto desta linha gráfica, apostando em foto ao invés de ilustração, nesse aspecto teve sim alguma relevância.

1990 – Itália

Mesmo com a Telstar tendo sido aposentada das Copas em 1974, aqui ela ainda permanece no logotipo de forma extremamente forte. Ok, pode ser encarada como um ícone atemporal, mas o fato é que está ultrapassada e deveria ter dado lugar a outra representação. No cartaz, explora-se o principal tema do país (o Coliseu), transformando-o numa arena de futebol, numa junção de ilustração e foto. Cumpriu o papel.

1994 – Estados Unidos

Um show de patriotismo e clichês. De novo a defasada imagem da Telstar ostentada em meio a bandeira norte-americana. Muito azul e vermelho, muitas linhas e pouca parcimônia. Percebe-se que faltou capacidade para unir as características do esporte, como o drible, o chute, a comemoração aos elementos típicos do país sede. Mesmo com todas estas considerações, o logotipo ainda é bem melhor do que o pôster oficial.

1998 – França

De novo o que se vê aqui é um rompimento entre o logotipo e o cartaz. Um é pragmático, objetivo, limpo, e o melhor, já dispensa a quase onipresente Telstar, o outro é baseado em pintura humana, multicolorida, remete a festa e alegria segundo os próprios criadores. Os dois juntos, não deu boa liga não.

2002 – Coréia do Sul e Japão

A primeira Copa compartilhada do mundo deve ter passado por diversas provações envolvendo a capacidade de lidar com diferentes culturas e alinhá-las de uma maneira harmônica. Eu gosto dos traços baseados em pinceladas orientais que pautaram a confecção do cartaz. Já a marca, achei muito séria e pouco cativante. Percebo muito mais valor na linguagem do cartaz do que na do logotipo.

2006 – Alemanha

A marca da alegria? O ano 2006 como base criativa para as “carinhas felizes” me agrada, acho um tanto infantil, mas este estilo a partir daqui passará a ser quase que um pré-requisito para quem quiser ter o seu trabalho atrelado a grandes eventos de apelo popular. O cartaz é ruim, a marca é boa e nenhum dos dois é sensacional.

2010 – África do Sul

Uma marca ruim, repleta de elementos pouco harmônicos e desagregados, assim é o logotipo do evento. O cartaz, este sim, traz um ar poético e de reflexão. Vale ser visto e o melhor, interpretado. É uma bela peça de design.

2014 – Brasil

Gosto da ideia de posse que as mãos transmitem ao segurarem a taça. É totalmente associada ao Brasil pelo fato de sermos os maiores vencedores e desejarmos de forma obsessiva. As cores também são boas e até a utilização do vermelho em 2014 deu uma pitada de tempero. Existem muitos comentários maldosos associando a marca ao ato de roubo, o que é compreensível pelo nosso histórico, porém se tratarmos apenas do aspecto conceitual e estético a marca não compromete não. É lúdica, não é óbvia e carrega consigo um ar bem humorado e humano. Segue na linha infantil, que ao meu ver já está bem desgastada e cada vez mais, oferece menos.

Para os interessados: www.fifa.com

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